Adbox

Moço, me dá uma moedinha

LightBlog

 

Amizade, sei que estou mexendo num vespeiro, mas não posso me calar. Faz tempo que esse assunto está entalado na minha garganta. A verdade é que eu já não tenho mais paciência diante de tantos pedidos de ajuda que recebo diariamente nas ruas de São Paulo. Pra qualquer direção que eu vá sempre encontro alguém pedindo uma moedinha, como se elas caíssem do céu diretamente para a minha conta bancária.

Quando vou à agência do Bradesco ali na Avenida Duque de Caxias, perto da Praça Júlio Prestes, é inevitável encontrar morador de rua deitado ao lado da porta de entrada, pedindo moedinha para quem sai da agência. Mais à frente, diante porta do mercadinho do China, na mesma avenida, nunca falta “morador de rua” caçando moedinhas. Nos bares e restaurantes daquela área, moleques de rua pedem refrigerante ou garrafinha de água mineral aos fregueses, mas querem os vasilhames fechados. Com o lacre intacto, eles podem vendê-los por qualquer moedinha, que irá para o pai ou a mãe alcoólatra ou para o bolso do traficante de crack.

 

Certo dia, um rapaz maltrapilho pediu-me alguma coisa para comer. Como eu não sou de negar comida, disse-lhe para escolher um salgadinho na estufa do bar. Ele respondeu que preferia um marmitex. Eu respondi que se estivesse nadando em dinheiro estaria tomando uísque do bom e não um rabo de galo de R$ 2,50. Visivelmente contrariado, o sujeito pegou um salgadinho e seguiu seu caminho pela Praça Júlio Prestes, em direção à Alameda Dino Bueno. Eu peguei o caminho de casa, avistando à minha frente o mesmo rapaz que, na primeira esquina tirou de um bolso um punhado de moedas, parou num boteco e pediu uma dose da marvada pinga. Atravessei a rua, parei ao lado dele e não perdoei: “Não há dinheiro pra comida, mas sobra pra pinga, né, seu tranqueira”. O cara me olhou espantado, assim como o dono da baiúca. Eu retomei o meu caminho decidido a nunca mais pagar nem salgadinhos para os pedintes.

 

Na Alameda Cleveland, perto da Escola Estadual João Kopke, já fui parado várias vezes por garotos maltrapilhos, com idades entre 10 e 14 anos, que pediram dinheiro para comprar alguma coisa para comer. Sempre respondo que é só voltarem para a escola, onde terão  lanche e almoço de graça e ainda adquirirão conhecimentos para conseguirem um futuro melhor. Na Alameda Nothmann, diante do supermercado que frequento, sempre tem morador de rua deitado na calçada, do lado da entrada, pedindo moedinha. Nenhum deles se oferece para carregar as sacolas de compras das freguesas idosas, em troca de algumas moedinhas ganhas com o próprio trabalho.  

 

Não é raro encontrar, diante da Estação Júlio Prestes, e das estações Tiradentes e Luz do Metrô, gente pedindo dinheiro para comprar passagem para voltar pra casa porque perdeu o bilhete único. Tem também o rapaz que mostra uma receita médica suja e inelegível para conseguir ajuda para comprar remédio e a senhora querendo dinheiro para ir a um determinado hospital. Sem contar o idoso de cabelo branco e barba de Papai Noel que parava todo mundo na Estação Paraíso pedindo ajuda para comprar alguma coisa para comer. Certo dia, algum tempo depois que ele me pediu dinheiro, encontrei-o bebendo cerveja em um restaurante ao lado da estação. O pobre coitado desamparado pela sorte tinha duas garrafas à sua frente e pedia uma terceira. Aí, alertei os demais fregueses que ele estava gastando com bebida o dinheiro recebido como esmola. Pelo jeito, bebia tanto que não guardava as feições das pessoas, pois em outras ocasiões voltou a me pedir moedinhas na Rua São Bento, no Viaduto Santa Ifigênia e na Avenida Rio Branco.

 

Quem usa o Metrô já deve ter encontrado a mulher ainda jovem que carregava duas crianças e pedia ajuda dentro das composições, alegando que não tinha nem leite nem arroz em casa. Um dia, perguntei-lhe como conseguiu o dinheiro para o Metrô. Ela respondeu que foi dado pelos passageiros, na entrada das estações. “Pois é, você pediu dinheiro lá fora e gastou com a passagem para continuar esmolando aqui dentro, quando poderia usá-lo para comprar um litro de leite ou um quilo de arroz para seus filhos” retruquei. Alguns passageiros me olharam espantados, mas lembrei-lhes que a “pobre coitada” poderia recorrer à ajuda da Pastoral da Família da Paróquia do bairro onde mora, em vez de carregar as pobres crianças de um lado para outro para esmolar. E ficou também a dúvida: será que os pequeninos eram realmente filhos dela? Dúvida que tenho também em relação a certos senhores e senhoras que me param pedindo algum “ajutório”, apresentando os mais variados motivos que hoje já não me sensibilizam como antigamente. Será que essas pessoas já não estão aposentadas por idade ou invalidez ou não são beneficiárias do Bolsa Família?

 

Amizade, diante de tudo isso, é preferível canalizar qualquer ajuda para entidades beneficentes, voltadas para o atendimento de alcoólatras, dependentes de drogas, crianças e idosos verdadeiramente abandonados pelas suas família. Nesses casos, você tem a possibilidade de fiscalizar a correta utilização do dinheiro doado e até pode dedicar um pouco do seu tempo para o trabalho voluntário, que é muito gratificante.              

0 Comentário(s):

    Ainda não há comentários.