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Uma luz na Velha Luz

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 Amizade, nem tudo está perdido. Surge uma luz no fim do túnel. As pessoas transformadas hoje em zumbis, pelo consumo do crack, podem voltar a ser gente amanhã. A esperança, a última que morre, está presente nesta história.

 19/06/2011 - 07h03

Esperança na cracolândia. Nova luz

O viciado da cracolândia vai ter um novo tratamento. Novo e eficaz. O modelo com mais resultados reconhecidos no Brasil.

A Prefeitura de São Paulo associou-se à Fazenda Esperança, do frei Hans. Aquela visitada pelo Papa Bento 16. O convênio prevê 500 vagas que podem ser distribuídas pelas 45 fazendas existentes no Brasil. Doze viciados da cracolândia já estão em Guaratinguetá.

Nunca se tentou, na cracolândia, esse tratamento. É a esperança de reduzir drasticamente a população permanente do local antes mesmo de 2017, ano previsto para a conclusão da fase 1 da Nova Luz.

Nada acontece por acaso. Muito menos do dia para noite. Quando a grande rodoviária de São Paulo foi desativada, em 1982, não se pensou nas consequências. Quase toda a vida local girava em torno da rodoviária dela. É um exemplo do erro frequente, que ocorre até hoje, de se fazer política pública pontual. Não se pensa no todo. Geralmente, para se atender demanda política aguda junto ao poder público. Atitude defensiva e simplista. Por vezes, eleitoral.

Demorou sete anos para a cracolândia consolidar-se na cidade. Assistimos de arquibancada. Casas e prédios foram abandonados, as ruas ficaram desertas e o tráfico as ocupou gradualmente. Cômodos vazios serviram para o consumo livre de drogas. A cidade foi perdendo, de mãos beijadas, uma de suas regiões mais ricas em infraestrutura.

A cracolândia é Luz. Porém, o projeto Nova Luz não foi feito com objetivo de erradicá-la. São coisas diferentes. O Nova Luz é para a cidade recuperar área degradada, repleta de equipamentos fundamentais, com baixa densidade e localização privilegiada. É a primeira grande revitalização na cidade. Por isso, um projeto nada fácil.

Tudo o que muda vícios antigos e hábitos arraigados tem inúmeros problemas no início do processo e uma transição agitada e conflituosa. É inevitável. Mas vale a pena. A mudança ergue a cidade, consagra seus habitantes.

O Nova Luz teve a área inicial ampliada e vai envolver dois polos comercias: Santa Ifigênia e Rua General Osório. E terá forte incentivo para a tecnologia da informação. Terá que respeitar as Zonas Especiais de Interesse Social com habitações para população com renda entre 0 e 15 salários mínimos. E precisa arrumar forma de acolher os moradores existentes com financiamentos a juros subsidiados e transferência de capital inicial a quem não deseja ser desapropriado. Além de criar a engenharia financeira para o atual habitante participar dos empreendimentos e permanecer lá, se quiser.

Com o Nova Luz, a população de drogados seria deslocada de lá, o que não resolve a questão da cracolândia. Ela vai para outro submundo de São Paulo. Para evitar que isso aconteça, é preciso outra política: eliminar outras áreas degradadas e tratar os dependentes da cidade.

Moradores de rua e dependentes químicos sem lar surgem da perda total de vínculos afetivos ou de esquizofrenia grave. Perdem o rumo. Precisam ser recuperados. A fazenda é a nova esperança para que a cracolândia não seja removida só geograficamente.

Na Fazenda Esperança o processo é simples, mas tem regras. Por isso, quem está fazendo o recrutamento na cracolândia é uma especialista daquela instituição, ex-drogada que conhece a linguagem e as agruras do viciado.

Se ele topar as regras, vai viver num barracão de 400m² com mais nove pessoas e um monitor (ex-drogado). Vai trabalhar bastante, ocupar o tempo (laborterapia) e rezar. O centro é católico.

É um desafio. Recrutar, convencer, estimular e conseguir a recuperação do vício. Não é fácil não.

Todavia, até agora, nada foi mais eficaz.

A vice-prefeita Alda Marco Antônio vai enfrentar o maior desafio da sua vida. Mais difícil do que o do secretário Miguel Bucalem. Este não pode deixar de iniciar a Nova Luz depois de tanto tempo de maturação.

Mas o novo modelo joga nova luz na cracolândia.

Vai depender da competência dos gestores.


 

José Luiz Portella Pereira, 58, é engenheiro civil especializado em gerenciamento de projetos, orçamento público, transportes e tráfego. Foi secretário-executivo dos Ministérios do Esporte e dos Transportes, secretário estadual dos Transportes Metropolitanos e de Serviços e Obras da Prefeitura de São Paulo e presidente da Fundação de Assistência ao Estudante. Formulou e implantou o Programa Alfabetização Solidária e implantou o 1º Programa Universidade Solidária. Escreve às quintas-feiras na Folha.com.


 

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