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A culpa é da chuva

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Amizade,

Acabo de enfrentar uma situação bastante constrangedora. Fui surpreendido pela chuva forte quando passava diante de um bar-restaurante, no centro velho de São Paulo. Aconteceu no início da tarde desta sexta-feira, no movimentado cruzamento das ruas Aurora, Triunfo, Washington Luiz e General Couto de Magalhães.

O aguaceiro me levou a fazer um pit stop forçado no “Bar e Restaurante Cinco Esquinas”, nome bem apropriado para um estabelecimento situado naquele cruzamento, não é mesmo? Ali, todos os freqüentadores são conhecidos. A maioria, desde a dupla de proprietários, os três funcionários e as dezenas de fregueses, chama um ao outro de “abestado”. Tem este ou aquele freguês pomposamente chamado de “abestaiado”. O “i” e o “a” no meio parecem indicar sinal de respeito, de condição social mais elevada. Nunca perguntei a razão desta distinção, mas ouvi dizer que é porque eles pagam as contas em dia. Ocorre que eu nunca pendurei conta alguma ali e estou na categoria dos “abestados”!

Meu momento era ruim, porque entrei no covil do demônio. Era chuva lá fora e pinga lá dentro. Com 68 dias, bem contadinhos, de abstinência de bebidas destiladas, a tentação era forte. Molhado e com frio, precisava me esquentar. A hora não era apropriada para um cafezinho. Chocolate quente, nem pensar. Leite me faz mal.

Estava em jogo a minha força de vontade: manter ou interromper a abstinência? O que você acha que aconteceu? Acha que eu vou mentir? Que nada, amizade. Eu sou humano! Não resisti e sorvi o meu primeiro rabo de galo em mais de dois meses. A situação era tão inusitada que meu amigo atrás do balcão nem brincou como antigamente. Surpreso com a minha recaída, nem se lembrou de balançar os quadris e fazer “cocoricó” com voz afeminada quando pedi o rabo de galo.

Agora, como um ser racional que pareço ser, volto a me esforçar para não repetir a dose porque, a bem da verdade, a abstinência estava me fazendo muito bem. Sem abastecer o corpo com a glicose contida na marvada pinga consegui emagrecer uns cinco quilos em pouco tempo. Se o organismo reagiu bem, o bolso se deu mal. Fui obrigado a gastar uns bons trocados com a costureira para ajustar uma meia dúzia de calças. Se não fizesse isso com as roupas, ia parecer que o defunto era bem maior. 

Tivesse o temporal me surpreendido diante da Igreja de Santa Ifigênia as consequencias teriam sido bem melhores. Ali no templo, além de abrigo, eu encontraria conforto espiritual e poderia orar para minha tropa da choque, os guerreiros Santo Expedito e São Sebastião, pedindo ajuda e proteção para mim, familiares e amigos. Além disso, o único líquido tentador presente no local seria a água benta que, como o caldo de galinha, traz conforto e não faz mal a ninguém.

PS: Diante deste episódio, cujo texto foi rabiscado sobre um balcão, reafirmo que bar não é apenas antro de perdição, mas também local de cultura e sabedoria popular. Além disso, olhando a chuva que já está molhando até a alma dos paulistanos, tive uma grande inspiração para o carnaval. Já que tenho que ficar aqui na cidade, vou me fantasiar de “Arca de Noé”. Assim, nenhum alagamento conseguirá interromper a minha trajetória.      

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