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Enfim, chegou o dia da bacalhoada

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(O título é novo, mas essa história é bem antiga. Quando aconteceu, o dólar valia muito, mas muiiito mais que o real, hoje super valorizado diante da moeda americana, para orgulho e felicidade dos brasileiros.)

Amizade, a bacalhoada surgiu no pensamento dele como a coisa mais natural do mundo. Afinal, a Páscoa estava à vista e a tradição tinha que ser mantida. Passando do pensamento à ação, ele foi investigar preços.

Meu amigo ficou espantado com a cotação do bacalhau de verdade e também com o que estão pedindo pelas suas várias imitações. Diante disso, avisou a família:

- Pessoal, a bacalhoada da Sexta-Feira Santa está suspensa! Falta dinheiro prá comprar o ingrediente principal!

Isto posto, meu amigo foi cuidar da vida, que está difícil e exige muito jogo de cintura dos descamisados e pés descalços brasileiros, que já nem tem mais cinto para inaugurar um buraco novo.

Fim de tarde, expediente encerrado na “radia”, lá estava o amigo com a pança encostada no balcão do empório do Bastião. À sua frente, repousava, momentaneamente, o copo do aperitivo preferido, enquanto ele comentava o preço absurdo do bacalhau com o distinto público à sua volta – meia dúzia de gatos pingados. Eis que senão quando, num rápido momento em que deixou de tagarelar para também ouvir, ele ficou frente à frente com uma alternativa possível de salvar a sua bacalhoada.

Mais uma vez, veio à luz o tradicional “jeitinho brasileiro”, sempre presente nas horas mais difíceis. Um dos presentes, chamado de “Bacalhau” por causa da magreza extrema e do seu soro caseiro, que era salmoura pura, acabou apresentando uma receita original e inteligente. 

- Arrume aí com o “vendero” Bastião umas lascas do caixão de madeira que embala o bacalhau verdadeiro, jogue numa caçarola prá ferver junto com os demais ingredientes da bacalhoada. Assim. ela absorverá o cheiro e o sabor do bacalhau impregnados na madeira. É preciso apenas ter o cuidado prá não engolir nenhuma lasquinha de madeira na hora da refeição, porque depois o tratamento médico ficará mais caro que o preço do próprio bacalhau.

Bom apetite, amizade.

(Fartura/SP -março de 1992)        

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