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Falar ou calar, eis a questão

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O tema foi proposto por um amigo, após viver uma situação inusitada, durante o último carnaval.

Começou no sábado, no centro de Itanhaém (SP), quando um motorista apressado e desatento saiu intempestivamente da vaga da zona azul para a pista, sem ligar a seta do veículo, nem olhar para o lado. Quase bateu no carro dirigido pelo filho do meu amigo, onde estavam também a esposa, a nora e um neto. Sentado no banco traseiro do carro do filho, com o neto de um lado e a esposa do outro, o pai reagiu, criticando a barbeiragem. Foi imediatamente repreendido pelo próprio filho e pela esposa, que consideraram desnecessária a reação dele, classificdo de estressado. Com palavras bruscas, o filho disse que o pai não precisava ficar incomodado com o episódio, que só dizia respeito a ele, que dirigia o carro. E quando meu amigo apontou para a placa do veículo, de São Paulo, comentando que o motorista era apressado e abusado porque vinha da Capital, recebeu um tapa no braço, dado pela esposa, acompanhado da declaração de que devia parar de provocar encrenca.

Quando o filho estacionou o carro, o meu amigo desistiu do passeio. Disse para a mulher que “o tapa magoou”, deixou o grupo e seguiu de volta para casa, a pé. Em meio ao longo percurso, o cidadão supostamente estressado, segundo esposa e filho, parou o trânsito para ajudar uma desconhecida, portadora de deficiência física, a atravessar uma avenida na orla da Praia do Sonho, em uma faixa para pedestres que era ignorada por todos os motoristas e motociclistas. Fez o que deveria ser obrigação de qualquer cidadão de bom senso, mas acabou sendo recompensado pelos agradecimentos da mulher, da sua acompanhante e de outras pessoas que testemunharam o seu gesto.

Chegando em casa, avistou a esposa, filho, nora e neto parados diante da porta. Aguardavam a chegada dele, porque não haviam levado a outra chave. Meu amigo disse que sentiu vontade de voltar prá trás e deixar eles ali, ao relento, mas o pensamento maldoso não vingou. Abriu a porta e todos entraram, sem que fosse feita qualquer menção ao episódio que fez ele abandonar o passeio. Mas o dia seguinte reservava outra surpresa.

Domingo à noite, o mesmo grupo foi a uma pizzaria no bairro Belas Artes, ainda em Itanhaém. Todos acomodados, aguardando o atendimento, quando na mesa ao lado um cidadão começa a contar aos seus amigos e amigas as suas peripécias em São Paulo, envolvendo mirabolantes entreveros com a Polícia. Em voz alta, que meu amigo ouvia nitidamente, contava suas histórias supostamente criminosas, na Zona Leste de São Paulo, como se estivesse na sala da casa dele. Meu amigo lembrou em voz baixa, para seus familiares, que bandido de verdade e que preza a própria liberdade, não revela sua condição em público, sob pena de acabar sendo preso. Outra vez, o filho e a mulher foram contra ele. O filho pedia prá ele esquecer o cara do lado, não arrumar confusão e cuidar da sua própria vida. O pai respondeu que estava apenas dando uma opinião, em voz baixa, pois nem tinha visto ainda o tal valentão. A mulher do meu amigo seguiu a mesma linha, pedindo prá ele não arrumar confusão.

Quando o meu amigo se levantou para se servir de cerveja, aproveitou para olhar para a mesa ao lado, onde estava o suposto “marginal” contador de aventuras policialescas. Foi quando o filho gritou para ele “sentar e evitar confusão”. Seguindo o conselho, o pai respondeu em tom baixo que ele deveria cuidar mais da própria vida e deixar de fazer reparos às atitudes da mulher e do filho deles, do que ficar querendo dar lição ao próprio pai, que já tinha mais de 60 anos de experiência de vida. E a mulher do meu amigo, que não queria que ele tomasse alguma atitude que chamasse a atenção dos outros, berrou um “cala a boca, não diga mais nada”. Aí, sim, todos os olhares se voltaram para a mesa onde estava o meu amigo, esposa, filho, nora e neto.

Ele simplesmente se levantou e foi embora. Ao passar do lado do “arauto do banditismo”, que mostrava um ar de surpresa pelo ocorrido na mesa ao lado, meu amigo comentou: “estou cansado de conviver com tantos heróis”.

Um quarteirão adiante, meu amigo parou no seu boteco preferido e traçou lentamente um “rabo de galo”, com Cynnar, Velho Barreiro e gelo, enquanto analisava os acontecimentos das últimas horas. Na mente dele, não havia mágoa, mas uma pergunta que exigia uma resposta: uma pessoa não pode mais dar sua opinião sobre fatos que ocorrem à sua volta, sem ser considerada encrenqueira, estressada ou esclerosada? Tem que se submeter à cartilha da maioria silenciosa que, como a boiada, caminha mansamente para a morte no abatedouro?

Amizade, para mudar, transformar, avançar, é preciso opinar, usar as palavras e os bons exemplos como formas de luta. Calar é consentir, é se submeter, é aprovar o que está errado, é viver escravizado.

Agradeço ao meu amigo pelo relato. Não esmoreça.

Obs: Qualquer semelhança com fatos reais não terá sido mera coincidência.

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