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Mamãe, o vovô tá bonito!

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Esse cara aí sou eu, amizade. A reação foi da minha neta Sophia, de 4 anos, ao me ver chegar em casa sexta-feira, dia 6. A pimpolha falava com a mãe ao telefone, quando abri a porta do apartamento e dei de cara com os visitantes inesperados: ela, o irmão Matheus, de 3 anos, e o genro Rogério. Quem fazia sala para eles era o Dennis, o herdeiro número quatro das minhas dívidas, qualidades e defeitos.

O pequeno Matheus tomou o telefone da mão da irmã e contou, com voz enrolada e quase incompreensível, para a mãe, a guerreira Jordana, minha herdeira número um, que eu estava de terno e gravata. O filho Dennis ordenou que eu parasse onde estava, na soleira da porta. Ato contínuo (bonito, não?), apontou uma câmera fotográfica digital na minha direção, dizendo que queria registrar aquele momento. Disse que ainda não tinha me visto naquele traje. Respondi que era o terno que usei na noite de formatura dele, ocorrida uns quinze dias antes. “Mas agora você está de volta prá casa depois de um dia inteiro de trabalho”. Em seguida (ato contínuo?), fez duas fotos minhas, mostradas com orgulho: “Viu como ficaram legais? Vou por na internet, prá mostrar para os meus amigos”.

Amizade, isso tudo aconteceu quando eu, jornalista registrado desde 1970, encerrava meu décimo dia de trabalho como segurança, no Lombroso Fashion Mall, um shopping de lojas de confecções localizado na Rua Prof. Cesare Lombroso, no Bom Retiro. Até aquele dia, eu vivia fazendo um bico aqui, ali, acolá... e até mais além, quase sempre mal remunerados e algumas vezes não pagos, prá me sustentar, desde que fui demitido da Rádio Capital, em março de 2008. A desculpa dada pelos coordenadores artístico e de jornalismo para a demissão era a crise econômica que se iniciava e obrigava a emissora a cortar gastos. Eu fui o primeiro, consolado com a promessa de que assim que a crise terminasse, dali a uns três meses, seria convocado novamente. Eu respondi que ia durar muito mais, entrando pelo ano seguinte. Logo depois, os dois grandes administradores radiofônicos, que continuam na mesma emissora, jogaram no lixo mais dois excelentes profissionais. A crise acabou e nenhum dos três foi chamado de volta pela Rádio Capital.

Desde então, não consegui mais espaço dentro da minha profissão, invadida por profissionais de baixa qualificação, padres e pastores “comunicadores” e muita gente sem diploma, nem registro profissional. O jornalismo de hoje parece uma terra de ninguém, onde proliferam os que aceitam salários baixos e condições de trabalho degradantes. Isso ocorre graças à omissão de um sindicato de que já teve à sua frente profissionais de brio, como Freitas Nobre e Audálio Dantas, grandes líderes da categoria na época do regime militar. Agora, é uma profissão, com raras e honrosas exceções, a serviço de quem está no poder.

Como a aposentadoria não saia, eu precisava continuar na luta, para ajudar no sustento da família. Acostumado a trabalhar desde os 14 anos, já estava propenso a virar auxiliar de cozinheiro ou ajudante geral em loja ou confecção do Bom Retiro. Depois da última decepção em um bico ligado à profissão, fui buscar informações com um conhecido, vigilante particular na Rua Silva Pinto. Ele desaconselhou as opções anteriores. Para ele, eu tinha postura adequada para ser aproveitado como vigilante, ganhando um salário bem mais atraente que aqueles oferecidos nas vagas que eu estava de olho. O cara até se dispôs a me apresentar ao pessoal de uma empresa de segurança que ele conhecia. E assim aconteceu. No mesmo dia da apresentação fui aceito.

Comecei a trabalhar no dia seguinte. Jornada de 12 horas, com uma parada de 1 hora para almoço, além de pequenas pausas para café e banheiro. Encarei o desafio, resisti ao esforço físico e me sinto mais sociável devido ao contato contínuo com pessoas das mais variadas classes. Gente da equipe, mais jovem, que dizia ser experiente na profissão e que começou a jornada no mesmo dia que eu já ficou pelo caminho. Outros dois estão na corda bamba. Minha família demonstra alegria e satisfação pela minha iniciativa. A todo instante, mulher, filhos e irmão perguntam como estou me sentindo no novo emprego, onde convivo com pessoas com dificuldades maiores que as minhas e com menos conhecimentos para enfrentá-las. Algumas, certamente, serão personagens de futuras cronicas minhas.

Amizade, o destino resolveu me experimentar, oferecendo-me apenas um limão. Agora, estou saboreando uma deliciosa limonada.



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