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O amor surgiu por acaso

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Numa noite de sábado, em 1973, encerrado o meu plantão na Rádio Globo AM, de São Paulo, sai decidido a ir a um baile de formatura, onde me encontraria com um grupo de amigos do bairro onde morava, a Barra Funda. Deixei a redação, que ficava na Praça Marechal Deodoro, por volta da 1 hora de domingo, acompanhado de um colega de trabalho. Eu tinha então 25 anos, mas como era um rapaz tímido, parei numa padaria próxima ao local de trabalho e encarei uma generosa dose de conhaque, para ganhar mais confiança. Meu colega fez o mesmo.

Chegando ao local do baile, o Clube de Regatas Tietê, encorajados pelo conhaque eu e o meu colega decidimos ir até o bar, do outro lado do salão, onde estavam os meus amigos, correndo por cima das mesas. Ao passar sobre uma delas, ouvi vozes femininas gritarem “cafajestes”, entre outros impropérios (bonito isso, não?). Olhei para trás e avistei duas garotas, uma loira e outra morena, gritando e gesticulando na nossa direção. Ainda pulando de mesa em mesa, gritei para o meu companheiro que depois de cumprimentar a turma deveríamos voltar até as jovens, para pedir desculpas e tirá-las para dançar.

Depois de uns goles de cuba libre, aparecemos diante das garotas, que nos receberam com muitas reprimendas, mas acabaram se acalmando diante dos nossos pedidos de desculpas. Como elas estavam sozinhas naquele momento, aproveitamos para convidá-las para dançar, ficando eu com a loira e o meu amigo com a morena. Os casais não foram desfeitos até fim do baile, quando sugerimos às garotas que fossemos tomar cafezinho no aeroporto de Congonhas, um programa que tinha muitos seguidores na época. Fomos a bordo do meu Fusquinha verde, ano 66, meu primeiro carro, e durante o trajeto todos puderam se conhecer melhor, onde estudavam ou trabalhavam. Na volta, combinei com a minha acompanhante, a loira Maria do Carmo, mais conhecida como Carminha, um novo encontro para o sábado seguinte. Quando cheguei à pensão onde morava, ela me recebeu no portão, tendo ao lado o irmão dela, Waldemar, que me foi apresentado, conversamos um pouco e saímos para a noite, eu e ela. Os encontros se sucederam, sem qualquer interferência do irmão dela que, na verdade, se transformou num grande amigo e até facilitou as coisas para mim.

Da amizade para o namoro foi um passo e um ano depois eu a estava pedindo em casamento. Foi na primeira conversa que tive com o pai dela, quando ele visitava os dois filhos aqui em São Paulo. Era um gringo de fala enrolada, que fazia jus ao apelido de Pepe Espanhol. “Seu Pepe, quero casar com a sua filha”, lasquei, de sopetão, para surpresa geral. Ele respondeu: “Se você quer casar com ela, pergunte prá ela se ela quer e não prá mim”. Aí, eu perguntei prá ela: “Carminha, quer casar comigo?”. Ela não esperava que eu fosse pedi-la em casamento, assim, sem mais nem menos. Enrubesceu, gaguejou, olhou para o pai, depois para o irmão, talvez buscando apoio. Eu voltei à carga: ”Eu quero casar com você. Se aceitar, a gente marca aqui mesmo a data do casamento”. Pesando bem as palavras, ela disse que “se o papai não tiver nada contra, eu aceito”. O Seu Pepe respondeu que se ela concordava, ele não iria se opor. O irmão, Waldemar, permaneceu em silencio a partir do momento em que eu fiz o pedido de casamento. Eu fui às nuvens com a resposta da Carminha. Voltei-me para Seu Pepe prometendo-lhe que faria a filha dele feliz e que daria a ela uma vida igual ou melhor a que ela tinha até então.

Estávamos em setembro de 1974. Acabei sugerindo o casamento para dali a um ano, no dia 6 do mesmo mês, porque era véspera de um feriado ligado a um fim de semana. Isso facilitaria a viagem de parentes e amigos para a terra natal da Carminha, a cidade de Fartura, na região Sudoeste do Estado de São Paulo. Na data combinada, meus convidados alugaram um ônibus de excursão e viajaram para aquela cidade, onde assistiram o casamento, realizado na Igreja Matriz. Depois curtiram a festa, tipicamente caipira, como eu desejava, realizada no sítio de um parente dela, com direito a sanfoneiro e violeiro. Naquele dia, quando eu me preparava para sair da casa da minha noiva para a igreja, chegou um carteiro, com dois telegramas. Eles formulavam votos de amor eterno e de muitas felicidades para o casal. Eram assinados por João Jorge Saad, presidente da Rede Bandeirantes de Rádio e TV e Murilo Leite, superintendente. Era por causa de gestos como esse, dos dirigentes da empresa, que os funcionários daquela época diziam, com muito orgulho, que faziam parte da “Família Bandeirantes”.

Eu e a primeira dama do meu barraco contribuímos para o aumento dessa família, com os filhos Jordana, Ricardo, Daniel e Dennis, herdeiros das minhas dívidas, qualidades e defeitos.

(São Paulo, fevereiro de 2011)

 

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