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Quanto vale um lugar no céu?

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Amizade, hoje, terça-feira, 28, comprei o meu lugar no céu por R$ 1.

Voltava do meu almoço, ingerido às pressas, para reassumir minha função como vigia de loja, no Bom Retiro, São Paulo. Já estava com os minutos contados para chegar e liberar o colega de trabalho que me substituía para voltar à ronda na rua, sua tarefa principal.

Logo após passar pela saída de veículos do Lombroso Shopping Mall, na Rua Prof. Cesare Lombroso, fui abordado por uma mulher, acompanhada de duas criancinhas, uma delas ainda de colo. Ela ofereceu-me panos de uso na cozinha, os chamados panos de prato, bem trabalhados, bonitos mesmo, que vendia para ajudar no sustento da família. Pediu-me R$ 5 por unidade. Confesso que achei caro. Além disso, estava sem dinheiro trocado e não tinha tempo para esperar que ela conseguisse trocá-lo.

Segui em frente mas acabei parando alguns metros adiante. Enfiei a mão em um bolso interno do meu paletó, onde guardava uma moeda de R$ 1 para comprar balas. Voltei até a mulher, coloquei a moeda na caixa de panos. Disse-lhe que era o que podia fazer naquele momento para ajudá-la. Não sou de dar esmola, mas ela era diferente da grande maioria de pedintes que encontro diariamente. Não pediu dinheiro dizendo que estava com fome, que precisava comprar leite ou arroz para os seus dois filhos. Pareceu-me uma mãe vendendo alguma coisa com a preocupação de ajudar no sustento das suas crianças, que estavam limpas e bem comportadas. Eu não lhe dei uma esmola, mas uma ajuda que me era possível naquele momento. A mulher ficou radiante e agradeceu-me efusivamente: “Deus lhe abençoe, moço”. Ser chamado de “moço” aos 63 anos já foi uma grande recompensa. Eu segui em frente, feliz por ter me rendido ao apelo da minha consciência, mais pertinaz que a minha pressa.

Ao chegar ao meu posto, na loja, pedi desculpa ao colega de trabalho pelos minutos de atraso. Expliquei-lhe o ocorrido, arrematando: “Acho que hoje comprei o meu lugar no céu por R$ 1". Ele riu gostoso, eu completei: “Cara, pensando bem, prá que comprar minha entrada no céu, por qualquer quantia, se Jesus está sempre ao meu lado?” Meu colega de trabalho, que na pia batismal recebeu o nome de Jesus, entregou-me o posto em meio a uma sonora gargalhada e saiu para a ronda dele.

Depois do ocorrido, o trabalho pareceu menos penoso e acho que a tarde até passou mais depressa. Talvez porque aquela moeda que ia usar para comprar balas acabou adoçando um pouco a vida de uma mãe de duas criancinhas que busca seu sustento com dignidade.



 

 

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