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Ser paulistano

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Amizade,

Dia desses, ouvi um cidadão dizer que era descendente de nordestinos, nasceu em São Bernardo do Campo e tinha muito orgulho de ser paulistano. Aí, pensei: “Nasceu em São Bernardo e tem orgulho de ser “paulistano”?

Como uma coisa leva a outra, voltei a pensar: “Quem pode se auto-proclamar “paulistano”, hoje, nesta metrópole?” Afinal, a maioria sabe onde ela começa, mas são poucos os que se arriscam a dizer onde ficam os seus limites territoriais. Isso porque a então acanhada São Paulo de Piratininga se transformou na “Grande São Paulo”, uma das maiores regiões metropolitanas do planeta.

Deixando de lado aqueles que chegaram com o Padre Anchieta ao local onde assentaram a cruz, criaram o Pátio do Colégio e fundaram o vilarejo onde fixaram residência e constituíram família, quem mais, depois disso, pode dizer que é ”paulistano”? Os filhos da antiga São Paulo de Piratininga saíram do Pátio do Colégio em busca de riquezas, adentraram matas intermináveis e desbravaram o vasto e desconhecido sertão, fundando inúmeras povoações, onde deixaram muitos descendentes. Quem nasce em Taboão da Serra, Itapecerica, Sorocaba, Taubaté e Guaratinguetá, entre tantas outras povoações que viraram cidades, fundadas após a passagem dos nossos Bandeirantes, não será também um “paulistano”?

Aquele descendente de nordestino que nasceu em São Bernardo do Campo mostra como se sente importante em ser considerado um “paulistano”, mesmo não tendo nascido na São Paulo de Piratininga. Porque paulistano é lutador, desbravador, perseverante, descobridor de novos caminhos. Paulistano é vencedor, mesmo quando aparentemente derrotado, como na Revolução Constitucionalista de 1932. Perdeu no campo de batalha, com gloria, mas venceu no terreno das idéias, com louvor. Derramou seu sangue, mas legou ao País uma nova Constituição. Graças a jovens de brio, como os do histórico MMDC – Márcio, Miragaia, Dráusio e Camargo. Quem deixa de pensar só em São Paulo para lutar pelo Brasil, como aqueles jovens, são os paulistanos de verdade, pois não defendem interesses próprios, mas de todos os seus semelhantes. Estes sim, são forjados com a têmpera dos que fundaram a vila que hoje é a “Grande São Paulo de Piratininga”.

São Paulo é uma cidade sem igual no mundo. Recebe a todos de braços abertos, mas ganha de muitos tão pouca atenção. São poucos os que, enriquecidos e agradecidos, ainda se preocupam com a recuperação e preservação da cidade e do seu patrimônio artístico, cultural e histórico. Mas são muitos, vindos de fora, os que promovem a degradação do espaço público, promovendo pichações, despejando lixo nas calçadas, emporcalhando abrigos de ônibus, postes, orelhões, caixas dos correios e lixeiras públicas com cartazes de toda espécie. Paulistano de nascença ou por opção não compactua com esse comportamento.

Aquele que contribui para criar a imagem de desleixo e abandono que impera hoje em várias áreas da cidade não tem a têmpera de um paulistano. Este ama, luta e morre pela terra onde nasceu ou escolheu como sua. Aquele é apenas um aventureiro, atraído pelas oportunidades de enriquecimento e sucesso. Não tem berço, eira nem beira. É um ser sem raízes, sem educação e sem o indispensável espírito de luta para contribuir para a pujança de São Paulo. Querer bem São Paulo é colaborar para manter no trilho a locomotiva que move o País.

Amizade, pense nisso, antes de dizer que é paulistano.

(São Paulo, 28 de julho de 2003)

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