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Um gole pro Santo

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(Fim de semana chegando, momentos de descontração, uns goles aqui e ali, que ninguém é de ferro, não é mesmo? Foi esse pensamento que me levou a recuperar, no fundo do baú, o texto abaixo. É sobre o fim de mais uma tradição, antigamente muito respeitada pelos apreciadores da “água que passarinho não bebe”.)  
Amizade,
Dias atrás, curtia meu aperitivo preferido, o tradicional “rabo de galo” – pra mim tem que ser com meia dose Cynnar, meia dose de aguardente e uma pedra de gelo. Trata-se de um hábito antigo encostar a barriga no balcão de um bar, quando estou voltando para casa, depois de mais uma jornada de trabalho. O local frequentado é agradável porque, alem do atendimento de qualidade, proporciona bons momentos de descontração, graças ao bom humor de funcionários e vários fregueses “abestados”, no linguajar simples de um nordestino idoso sempre de bem com a vida.
Conversa vai, conversa vem, alguém acabou trazendo à luz um hábito que era tradicional nos botecos da vida, mas já em desuso há muitos anos. Trata-se daquele gesto de destinar o primeiro gole da marvada pinga pro Santo. Era comum o cidadão chegar no bar, pedir uma dose de “branquinha” ou “amarelinha” e fazer uma reverencia. Invariavelmente, lançava uma porção contra o balcão ou no chão, declarando solenemente: “um gole pro Santo”. Quem ficava no prejuízo era o dono do boteco, que tinha que providenciar com maior frequencia a limpeza dos locais destinados ao “gole do Santo”, em prejuízo de outras atividades. Pior mesmo era a situação do Santo, obrigado a aceitar o primeiro gole, mesmo que não apreciasse a marvada pinga. Haja fígado para aguentar tanto primeiro gole, das mais variadas marcas. Depois de um dia repleto de brindes, ficava difícil para qualquer Santo fazer algum milagre, não é mesmo?
Pelo que apurei durante a conversa, o fim desse estranho hábito, cuja origem desconheço, foi bem recebido pelos donos de boteco porque simplificou a limpeza, e pelos devotos, uma vez que os santos agora estão bem mais lúcidos para ouvir suas súplicas. Agora, se o pedido de ajuda não for atendido, não tem nada a ver com o gole pro Santo. A culpa só pode ser atribuída à falta de fé do devoto.
Pense nisso, amizade.        
(Sizemar Silva – 1993 – em Hora da Noticia, da FM Voz do Vale – Fartura/SP) -                

 

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