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Uma janela para São Paulo

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Texto publicado no livro “Conte sua história de São Paulo”, impresso em 2006, numa iniciativa do jornalista Milton Jung, da Rádio CBN São Paulo 

Uma janela para São Paulo
Através da janela do apartamento, no nono andar, ele avistava um trecho de São Paulo bem diferente daquele que conhecia até 1988, quando deixou a terra natal em busca de novos horizontes. Naquela época, a única estação rodoviária da cidade, na praça Júlio Prestes, fervilhava de gente. Em frente, a estação ferroviária concorria em movimento. Era gente entrando e saindo aos borbotões dos ônibus e trens que chegavam e partiam de e para os mais variados rincões do país. Aquele lugar estava sempre congestionado de pessoas nos finais de semana, parecendo um imenso formigueiro. Agora, o terminal rodoviário está desativado e, em conseqüência, o ferroviário perdeu o movimento que tinha no passado.
Avistava dali, também, parte da fachada do antigo prédio da praça General Osório que abrigou o temido Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), órgão de repressão na época do regime militar, que tomou o poder em 1964 e só saiu depois de longos e tenebrosos 25 anos. O prédio, restaurado, tem hoje uma função mais nobre. Ele abriga, agora, um anexo da Pinacoteca do Estado e fica feericamente iluminado à noite, revelando uma aparência bonita, tranqüila e pacata. Mais adiante, está a cúpula, com o Cristo, da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, ligada ao colégio no qual passou uns três ou quatro anos de sua juventude. Lá existe um teatro, onde assistiu a um inesquecível espetáculo com a participação de alunos do colégio. Um deles era Toquinho, que dava a largada para uma brilhante carreira de violonista e compositor. Foi a caminho de uma aula noturna no Coração de Jesus, aos 16 anos, que fumou o primeiro dos muitos cigarros que lhe acompanharam nos 24 anos seguintes.
Ao lado do prédio onde mora, a não mais de 50 metros, está a histórica estação da Luz, e, depois dela o parque da Luz, que ainda abriga o jardim-de-infância da sua meninice, no qual a mãe dele trabalhou como servente. Naquela época, o viveiro de mudas que havia no parque era cuidado pelo “vô” Atílio, um jardineiro caprichoso nascido no interior que plantou muitas árvores e flores ao longo da sua vida. Perto do saudoso “parquinho”, na esquina das ruas Prates e Ribeiro de Lima, ainda existe a creche Casa Dom Gastão. Era ali que ele e o irmão mais novo passavam o dia, tendo de engolir sempre, na hora do almoço, o intragável “óleo de fígado de bacalhau”, enquanto a mãe deles batalhava sozinha pelo sustento da família, separada que estava do marido: mulato bom de bola, funileiro caprichoso, atencioso com os filhos, mal compreendido pela sogra ranzinza e racista, pivô da separação do casal.
Junto ao parque da Luz, ele revê o antigo e imponente prédio da Pinacoteca do Estado. Lá, fez curso de desenho arquitetônico, sem concluir, porque a inclinação dele era para o desenho artístico. Mais embaixo, de frente para a avenida Tiradentes, também fazendo divisa com o parque da Luz, está a escola estadual Prudente de Moraes, que freqüentou por alguns anos. Fora desse quadrilátero, não muito distante, está o Instituto Dom Bosco, onde também foi aluno por um par de anos, pelo menos.
Aquele pedaço de São Paulo, uma parte de sua vida na infância e na juventude, mudou muito nos quinze anos em que esteve fora da cidade. Foi abandonado, ficou degradado, mal-habitado e mal-amado, mas ele percebe que ainda resiste bravamente às agressões sofridas ao longo do tempo.
Hoje ainda há um punhado de gente que sonha em legar para as gerações futuras em belo retrato de um passado glorioso. Gente que ainda é sensível ao canto fora de hora de um galo que sobrevive heroicamente nas redondezas. Gente que não esquece as badaladas do velho relógio da imponente e centenária torre da estação da Luz. São pessoas que esperam que a obra de ligação trem-metrÔ contribua para reviver aquele pedaço de São Paulo, que tem muita história para contar. Lá residem paulistanos, de nascença ou por opção, que querem deixar para os seus descendentes, como ele para os seus filhos e netos, um enorme e revitalizado patrimônio que retrata a criatividade e a pujança de um povo desbravador e lutador.         
PS – A esperança continua viva. O projeto de revitalização da área da Luz está em andamento. Ainda é cedo para comemorar. No momento, há um aspecto de terra arrasada em alguns quarteirões. Na praça Júlio Prestes, o prédio da antiga estação rodoviária, que abrigava o Fashion Shopping Luz, está sendo demolido, acompanhando o destino de vários imóveis das ruas Helvécia e Barão de Piracicaba. Vai surgir neste espaço mais um centro cultural. Resta esperar agora por uma ação especial voltada para os moradores de rua e viciados em crack que perambulam de um lado para outro, na área, sem receber a devida atenção. Muitos vivem como animais ou zumbis, mas todos são seres humanos e precisam de atenção, tratamento e encaminhamento para atividades ou cursos profissionais, para que recuperem a dignidade perdida em algum momento de desespero ou fraqueza.
Sizemar Silva

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