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Uma porta para o futuro

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Foi uma passagem rápida, entre março de 1972 e dezembro de 1974, mas produtiva e inesquecível. Era uma manhã de sábado, quando apareci na redação da Rádio Globo/AM, na Praça Marechal Deodoro, em São Paulo. Na época, trabalhava como redator/locutor na Rádio Gazeta AM, que tinha um pequeno estúdio ao lado da redação da Folha de São Paulo, na Alameda Barão de Limeira.

Fui à Rádio Globo fazer um teste, sem muita convicção de que poderia conseguir um emprego. Só que a visita também me oferecia a oportunidade de conhecer bem de perto como funcionava o Jornalismo de uma emissora de ponta. Naquela ocasião, eu achava que não estava preparado para fazer parte da equipe da Globo, que tinha profissionais gabaritados como Olavo Marques, Eduardo Neto e Nery Omar Burtzlaf, secretários e também locutores/noticiaristas da emissora. Integravam ainda o time Luiz Lopes Correa (lembram-se da gravata borboleta dele na telinha da Globo?), Cleo Medeiros e Júlio Cesar Aredes. Antonio Aguilar, Ataíde Alves Franco e Carlos Nascimento eram repórteres. O comando da equipe estava sob a responsabilidade de James Membribes Rúbio, o chefe de Jornalismo.

Apresentei-me ao professor Olavo, que me mostrou as dependências, apresentou os profissionais do horário e explicou como seria o teste. Primeiro, tinha que redigir cinco notícias diferentes, para depois usá-las no teste de locução. O prof. Olavo deixou-me bastante à vontade, mas quando fui para o microfone, a emoção afetou a minha voz, que já não era lá grande coisa. Muito gentil, o prof. Olavo disse-me que aprovava a minha redação, mas que eu não me enquadrava no perfil dos locutores da equipe. Ele informou que ia continuar testando outros, mas que poderia me chamar se não conseguisse logo um locutor.
 
E eu fui chamado, amizade. É isso mesmo! Pelo jeito, estavam em no mercado locutores com aquele vozeirão que era padrão no rádio AM da época. Peguei o período das 5 às 10h, para redigir notícias para o Seu Redator Chefe das 7h da manhã e para os noticiários das 8, 9 e 10h. Algum tempo depois, atribuíram-me também a produção e apresentação, dentro do Redator Chefe, de um boletim sobre sindicalismo, assunto que já começava a ganhar espaço mais abrangente na mídia. Nesse meio tempo, a Rádio Gazeta acabou com o seu jornalismo e eu fui demitido, em maio de 1972, juntamente com os outros dois locutores/noticiaristas.
 
Mais ou menos um ano depois que estava na Globo, o emprego seguro e promissor, o bom salário e a juventude começaram a prejudicar o meu rendimento na rádio. Aproveitava mais a noite, ia dormir muito tarde e acabava chegando atrasado na redação. Minha produção caiu e fiquei na mira dos meus superiores. Um dia, o Prof. Olavo me chamou e me avisou que os atrasos, cada vez maiores e mais freqüentes, prejudicavam os noticiários, sobrecarregavam a equipe e preocupava o Chefe de Jornalismo. Eu tinha tido pouco contato com o James Rúbio, devido ao meu horário de trabalho, mas os companheiros diziam que ele era exigente, mas muito mais um amigo do que um chefe.  
 
Durante a conversa com o prof. Olavo, o coração apertou. “Perdi o emprego”, pensei. Fiquei surpreso quando ele propôs minha transferência para o período noturno noite, onde integraria a equipe da segunda edição do “Seu Redator Chefe”. Disse-me que em vez de um castigo, eu estava ganhando um premio, dando a entender que o James Rúbio gostava do meu trabalho e desejava me aproveitar no horário das 19 às 24h. Respondi que não daria para entrar às 19h, porque trabalhava das 14 às 19h. na Bandeirantes AM, lá Morumbi, onde havia ingressado como rádio escuta, em setembro de 1972. Aí, o prof. Olavo sugeriu que eu conversasse pessoalmente com o James Rúbio para tentar um acerto. Bastante compreensivo, meu chefe acabou concordando que eu entrasse às 19h30 e saísse à 0h30.     
 
Neste novo horário, permaneci na Globo AM por cerca de mais um ano e meio. Creio que teria vida longa na emissora, se um tal Hélio Ribeiro não atravessasse o meu caminho na Band Am, onde eu tinha sido promovido a redator. Uma tarde o Hélio, que era o Diretor Artístico, me procurou, disse que ia fazer mudanças no Jornalismo e que desejava que eu fizesse parte do novo projeto. A idéia era ter apenas um redator para uniformizar o texto das três edições do noticiário “Nosso Correspondente”, que iam ao ar às 7, 13 e 18:50h. Esse redator entraria as 7h e sairia as 19h. Se eu encarasse desafio, ele dobraria meu salário na Band. Recusei a oferta, porque ganhava mais na Globo, onde estava muito bem.  O Hélio disse que não tinha como atender minha pretensão salarial. Eu sugeri que procurasse outro.
 
Passados mais alguns dias, ele voltou à carga, oferecendo um pouco mais. Respondi que só aceitaria se a Band pagasse o dobro do que eu ganhava na Globo. Novo recuo do Hélio. O trabalho na Globo, que contribuiu muito para que eu me aperfeiçoasse jornalísticamente, acabava me valorizando profissionalmente porque lá minha responsabilidade era maior do que na Band. Sem encontrar alguém para por em prática o seu projeto, o Hélio Ribeiro bateu o martelo: ”Eu pago o que você está pedindo”.
 
Aí, não tive alternativa. Procurei o considerado James Rúbio e contei-lhe sobre a proposta da Band. Ele compreendeu que era a minha grande chance de avançar na carreira e não criou obstáculo para a minha saída da Globo. Graças ao meu aprendizado e à ajuda dos companheiros com os quais convivi lá, eu pude encarar o desafio que me foi apresentado na Band AM. Minha passagem pela Globo me abriu um novo horizonte na emissora do Morumbi, onde conquistei a confiança do maior comunicador que conheci, Hélio Ribeiro, responsável por outras promoções que tive na Band.                

Além de servir como uma porta para o futuro, a Globo AM contribuiu até para o meu casamento, mas esta já é uma outra história.

 

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